Mostrando entradas con la etiqueta Articulos en portugués. Mostrar todas las entradas
Mostrando entradas con la etiqueta Articulos en portugués. Mostrar todas las entradas

miércoles, 21 de noviembre de 2018

En San Pablo: "El Inmortal", Gisele Fróes visita la eternidad de Jorge Luis Borges


Inspirado en el cuento de Borges, persigue el sueño de dejar como herencia gestos y palabras

Em 'Imortal', Gisele Fróes visita a eternidade de Jorge Luis Borges

 Em 'Imortal', Gisele Fróes visita a eternidade de Jorge Luis Borges Foto: ISMAEL MONTICELLI


Inspirado no conto do argentino, persegue o sonho de deixar como herança gestos e palavras

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

Para Gisele Fróes, Jorge Luis Borges é como água fresca no meio do deserto. Essa foi a sensação que ela teve ao ler O Imortal, conto que abre O Aleph, do escritor argentino. O texto ganhou versão para os palcos, já passou por Brasília e Rio, e chega a São Paulo nesta sexta, 26, no Sesc Avenida Paulista.

Na época em que leu o conto, Gisele conta que estava afetada pela personagem que interpretava na montagem carioca de Você Precisa Saber de Mim (2011), dirigida por Jefferson Miranda. “Era uma mulher com dificuldades de se expressar por palavras.” A escassez verbal que abundava a vida da personagem conduziu a atriz ao oásis literário de Borges. “As palavras do conto provocaram minhas emoções e eu precisava estar perto delas. O jeito era transportar a história para o palco”, explica a atriz sobre o monólogo.


Mesmo assim, a trilha que levou Gisele ao texto não garantia destino certo. Os labirintos de palavras criados por Borges também estão presentes em O Imortal, conta o diretor Adriano Guimarães, ao lado do irmão Fernando. “É difícil enquadrar o texto em um gênero”, diz. “Há uma espécie de jornada do herói em busca de algo. No meio existe um tratado de filosofia e até um momento de crítica literária.”

De fato. No texto, uma mulher recebe seis exemplares da tradução inglesa de Ilíada e enquanto folheia os volumes daquele antigo poema épico de Homero, descobre um manuscrito escondido. Nele, revela-se o relato autobiográfico de um tribuno militar, um oficial do Império Romano chamado Marco Flamínio Rufo. Na história, ele conta para a leitora, e agora para a plateia, o seu percurso em busca da Cidade dos Imortais, local que abriga um rio capaz de purificar da morte qualquer um que beba de suas águas. “É uma narrativa fluida”, aponta Adriano. “O que permite encarar diversos caminhos, desde a vida da mulher, desse herói e do autor.”

Além do texto, a dramaturgia de Adriano e Patrick Pessoa se apoiou em uma palestra de Borges sobre o tema da imortalidade e eternidade, muitos anos após a escritura de O Imortal. “Lá ele acaba por iluminar o sentido desta perseguição à imortalidade, que nesse caso, não segue a ideia obsessiva da manutenção do corpo físico através do tempo, mas da eternidade que pode haver nas palavras e no gestos”, conta Adriano.

No palco, uma profusão de caixas de papelão e livros ao redor de Gisele. A estreia da peça em uma galeria de Brasília deu tom de instalação ao espetáculo, conta o diretor. “É um gatilho para a imaginação, criando um local em comum em contato com os outros elementos, como o texto e a atriz.”

Para Gisele, o cenário “a transporta para o infinito”, diz. “Em certo momento, o autor coloca em dúvida o que o guerreiro está nos contando. É um texto cheio de labirintos e me permito percorrer esse questionamento ao lado da plateia. E para se justificar, Borges recorre ao autor de Ilíada: são as mentiras que os poetas contam.”

Fuente: O Estado de S.Paulo

jueves, 4 de octubre de 2018

Jorge Luis Borges, os caminhos da metáfora





 “os modelos metafóricos ainda podem ter uma elasticidade em que se pode ter algo novo”

INTRODUÇÃO

Temos aqui, neste texto, partes resenhadas de uma palestra borgiana que veio a se tornar livro, Esse Ofício do Verso, e se trata de palestras proferidas em inglês por Jorge Luis Borges nos anos de 1967 e 1968, na Universidade de Harvard, e aqui temos a digressão do escritor sobre questões que tocam ao estudo linguístico e a literatura, numa riqueza de erudição própria do saber que podemos chamar sui generis da percepção intelectual borgiana.

O ENIGMA DA POESIA

Borges começa tratando da palavra enigma já dizendo que não tem nada a revelar neste sentido, que o mistério que cerca a poesia como um todo não é facultado a seu intelecto desvelar, portanto, aqui já de saída desmistifica-se a poesia e seu enigma, uma vez que o saber borgiano discorre mais etimologicamente sobre o tema do que sobre um suposto dom revelador de um adivinho das letras que Borges logo refuta.

Portanto, a postura de Borges diante da poesia é muito mais lúdica, de perplexidade, isto é, de um leitor que tem dúvidas sobretudo, do que de um conhecedor profundo de arcanos que na verdade não existem, pois o intelecto borgiano funciona aqui muito mais como um documento do que um fundamento para a análise da poesia.

E, falando da perplexidade, Borges nos convida ao próprio espanto histórico de que se fez e com a qual se edificou todo o saber filosófico, pois desde as origens do pensamento reflexivo da filosofia temos o espanto, aqui em Borges com a palavra perplexidade, a qual alimentou as especulações filosóficas desde os hindus, chineses, gregos, escolásticos, seja já na filosofia moderna com Berkeley, Hume, Schopenhauer, etc, tal sentimento de dúvida que Borges nos faz saber e compartilha como o começo de sua reflexão sobre o estro poético.

Na análise borgiana temos sobretudo a refutação da ideia ou conceito de forma e conteúdo como expressão, esta que vem da estética, e que está aqui bem citada no livro de estética de Benedetto Croce, área teórica que toma poesia e linguagem segundo o conceito de expressão, num modo de ver que Borges julga equivocado, pois se descola da coisa própria, a poesia aqui vira um fato para a teoria, mas Borges tenta situá-la em seu terreno, a vida.

Borges nos cita John Keats em seu famoso e batido soneto On first looking into Chapman's Homer, o qual é, na fala de Borges, “um poema escrito a respeito da própria experiência poética”. Aqui vigora não a comunicação tomada como tal, mas uma paixão e um prazer, no qual Borges se vê impactado e impressionado não somente em seu intelecto como “com todo o meu ser, minha carne e meu sangue”.

E, fenômeno comum a um leitor, a primeira impressão ao ler um poema impactante nunca se repetirá, isto é, a primeira leitura de um poema causa ao leitor algo tão intenso em termos de deleite e paixão, que não se repetirá em leituras posteriores, já esfriadas por um conhecimento de causa. Contudo, Borges, mesmo diante desta evidência, ainda tenta nos fazer crer que a leitura de um poema se renova e que é possível termos “uma experiência nova a cada vez” com a poesia.

Borges lembra da importância da memória e do saber oral nos inícios da Antiguidade e como isto evoluiu para escritas sagradas como a Bíblia e o Alcorão, sendo aqui o sagrado como escrita do Espírito Santo, por exemplo, quando falamos das Sagradas Escrituras, e atributo do próprio Deus, quando falamos do Alcorão. E segue a leitura de Borges então sobre os clássicos, que lhe são mais caros pela beleza do que necessariamente por sua tomada imortalidade histórica.

E a experiência de beleza passa aqui por uma operação etimológica que se modifica a cada tempo e que na leitura poética tem em palavras de origens diversas uma leitura própria nestes contextos em que a poesia se exerce. A poesia ganha aqui impacto próprio, mesmo em diversas experiências de tradução pelas quais passe. Quando Borges nos diz da beleza, ele nos diz da permanência da poesia.

 A METÁFORA

Borges logo nos dá o fenômeno inusual de que as combinações metafóricas se nos dão como infindáveis, mas que temos contudo o fenômeno usual de que muitos de nossos poetas se utilizam geralmente de metáforas surradas que se repetem pelos anos, no que Borges nos dá este paradoxo em que a amplitude da língua se limita, talvez, quando tratamos desta na língua poética.

Borges segue a sua análise e tem em conta que a metáfora se dá tal qual, isto é, funciona sempre para a percepção do leitor como ela é, ou seja, uma metáfora. Podemos até bem citar a análise borgiana das palavras poéticas como espécies de palavras-valise (aqui lembrando uma leitura exógena carroliana que aqui o resenhista inclui por contra própria) e temos então usos que se dão em metáforas que fluem diversamente, independentemente de condições lógicas prestebelecidas, mas do uso diverso feito pelos poetas e suas idiossincrasias simbólicas feitas pelo estro em ação, e que Borges nos dá exemplos como pela palavra noite, ampla em seu ir e vir pelas metáforas em seu sentido e uso.

Contudo, embora Borges nos dê a diversidade da palavra noite como metáfora, nos dá a entender também, por conseguinte, a limitação das metáforas surradas em palavras como lua, rio e pela manjadíssima comparação das mulheres com flores num estro romântico desavisado em língua-clichê que a poesia sempre conflui para o bem ou para o mal. Temos que a metáfora surrada dos poetas é um limite não linguístico, mas estilístico, em que o poeta é escravo de seu próprio estilo e não tem para onde ir.

E Borges segue a sua análise comparando o argumento filosófico em seu conteúdo lógico como insuficiente diante da verdade metafórica encontrada na poesia, e temos que Borges vê um discurso filosófico como o de Martin Buber, por exemplo, tendo mais valor como algo de beleza poética ou sonora como de um argumento filosófico propriamente dito, o que leva Borges a viver em Walt Whitman, por conseguinte, uma medida que ele usa para chancelar sua análise de que a poesia é mais convincente do que as ideias racionais, pois estas estão sem o brilho da beleza que a poesia proporciona.

E Borges nos dá sinais na poesia que atuam como velhos encantamentos que passam com o tempo a configurar truques de obviedade de modelos limitados de metáforas na poesia, desde afetações gongóricas do repertório barroco ou ainda imagens reiteradas de um estro romântico byroniano, por exemplo.

O que temos, por fim, dados exemplos de poetas históricos, é que os modelos metafóricos, embora limitados, ainda podem ter uma elasticidade em que se pode ter algo novo, “novas variações das principais tendências” em que temos o paradoxo dos modelos limitados, quase truques, com a inovação possível ainda por novos poetas históricos em correntes ou tendências ainda inauditas.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Fuente: Século Diário

sábado, 21 de abril de 2018

As conversas perdidas de Jorge Luis Borges





 Quatro conferências feitas pelo escritor argentino em Buenos Aires, sobre o tango, há mais de meio século, e das quais se pensava não haver registo, apareceram numas cassetes. A tradução portuguesa é agora publicada.

JOSÉ RIÇO DIREITINHO

Em 2012, o escritor basco Bernardo Atxaga publicou na revista Erlea (editada pela Real Academia da Língua Basca) um artigo sobre a história das gravações de umas conversas públicas, acerca do tango e das suas origens, tidas pelo argentino Jorge Luis Borges, em 1965, num apartamento em Buenos Aires. As cassetes estavam na posse de Atxaga havia dez anos, mas muito poucos sabiam da sua existência. Tinham-lhe sido dadas, num embrulho, por um outro basco, Manuel Goikoetxea, que havia algum tempo as recebera, trazidas de Buenos Aires e em agradecimento pela amizade, de um galego que emigrara para a Argentina em criança e que se tornara produtor musical, Manuel Román Rivas.

Bernardo Atxaga digitalizou o material e guardou-o. Anos mais tarde, confirmou a autenticidade dessas conversas quando o biógrafo Edwin Williamson, autor de Borges: Una vida (2007), escreveu sobre elas depois de ter encontrado no jornal argentino La Nación – na página 6 da edição de 30 de Setembro de 1965 – uma notícia com o título Sobre temas do tango falará Jorge Luis Borges, e em que nela se anuncia “um ciclo de conferências que será apresentado todas as segundas-feiras de Outubro, às 19, no primeiro andar, apartamento 1, da rua General Hornos, 82”, e nas quais falará sobre as “Origens e as vicissitudes do tango”, “O Río de la Plata nos princípios do século”, entre outros temas relacionados.


Dois anos depois de ter publicado o artigo na revista basca, Atxaga enviou as cassetes ao seu amigo e escritor galego César Antonio Molina, na altura director da Casa del Lector, em Madrid, dizendo-lhe que lhes desse a publicidade que entendesse. Molina, amigo de longa data de María Kodama (viúva de Borges), ligou-lhe de imediato e contou-lhe do ‘achado’, ao que ela respondeu que desconhecia as gravações e as conferências; o escritor galego enviou para Buenos Aires uma cópia, e semanas depois a viúva de Jorge Luis Borges confirmou que o material gravado era autêntico. Foi em Novembro de 2013 que os três (Molina, Kodama e Atxaga) reuniram a imprensa para falarem sobre o assunto. Acerca do trajecto feito pelas gravações durante quase meio século, disse César Antonio Molina: “todo este périplo representa simbolicamente o que é a nossa comunidade ibero-americana: um galego grava um argentino; o galego entrega a gravação a um basco e o basco volta a entregá-la a outro galego para que, por fim, o documento de um argentino, um dos grandes mestres da literatura de todos os séculos, veja a luz.”

Fuente: Ípsilon

domingo, 20 de agosto de 2017

Enciclopédia mapeia pessoas, lugares e conceitos na obra de Jorge Luis Borges


Organizada por professor da USP, 'Borges babilônico' traz mais de mil verbetes
  
POR DANIEL SALGADO

RIO - As obras de Jorge Luis Borges são abrangentes, universais. Viajam por pampas argentinos, visitam mesquitas de Córdoba, adentram palácios imperiais da China e evocam, em certa medida, o objeto que dá nome ao seu conto mais famoso: o Aleph, a esfera achada num sótão de Buenos Aires que permite observar o mundo inteiro e gera mais perguntas do que respostas sobre o que revela.

Por isso, as páginas de seus contos, ao mesmo tempo independentes e dialogando entre si, são uma viagem rumo ao desconhecido. É para ajudar os desbravadores a adentrar mais profundamente na mente do argentino que surge “Borges babilônico”, uma enciclopédia que se propõe a mapear as pessoas, os lugares e conceitos tão caros como referências ao autor.

O projeto reúne mais de mil verbetes sobre a produção literária de Borges. Não é tarefa fácil, tratando-se de uma obra tão dada ao mistério, que repetidamente apaga a linha entre real e ficcional. Obras de um autor que, citando Marco Polo, reforça sua visão de que “o real não é mais verdade do que o inventado”.

Para completar a hercúlea tarefa, Jorge Schwartz, acadêmico da USP que lecionou cursos sobre Borges ao longo das últimas décadas, elencou mais de 60 colaboradores. São especialistas brasileiros e estrangeiros, como Júlio Pimentel e Beatriz Sarlo, e até autores como o argentino Ricardo Piglia.


— São verbetes curtos e longos, alguns quase pequenos ensaios. Mas com uma condição: todos tratam, sem exceção, de Borges. Uma coisa é explicar quem foi um filósofo do Renascimento. Isso se encontra pela internet. No livro, você vê como a obra dele (do filósofo) foi digerida e interpretada por Borges — explica o organizador, que contou com a ajuda de Maria Carolina de Araújo na organização editorial do projeto.

A ideia do livro passou por uma longa gestação, e teve início quando Schwartz supervisionou as traduções das obras completas do escritor argentino no fim da década de 1980.

— Recebemos uma restrição: não podíamos fazer notas de rodapé explicativas, o que deixou uma montanha de esclarecimentos e consultas. O impedimento acabou virando um estímulo para fazer o que seria um pequeno guia de leitura para Borges no Brasil — conta Schwartz.

Esse pequeno guia foi tomando proporções cada vez maiores. O que, inicialmente, seria feito por alunos de iniciação científica da USP, ao longo dos anos tomou forma de uma vultosa enciclopédia.

— Acho que é um volume que se abre em várias direções. Usamos uma linguagem didática, com o objetivo de levar até Borges mesmo quem não o leu. Com isso, é possível entrar na cabeça dele. Você pode ver a imaginação do Borges em três dimensões nos verbetes, algo que não seria possível de outra maneira — argumenta o editor.

E mesmo sendo acessível ao público iniciante, o livro recompensa fãs mais dedicados. Feito por especialistas, com profundidade e bibliografia extensa sobre estudos do autor, “Borges babilônico” conta com verbetes próximos a ensaios, que dão uma visão aprofundada de temas recorrentes na obra do argentino, como Tempo, Valentia e Matemática.

Tratando-se de Borges, que declarou que via nas bibliotecas o seu paraíso, não surpreende constatar a importância das leituras para entender a mente do escritor. Mas o que “Borges babilônico” revela são também as suas outras paixões. A história da república Argentina, o cinema de faroeste que o emocionava, as ruas de Buenos Aires pelas quais se apaixonou.

Através da enciclopédia, é possível traçar um mapa afetivo de todas as fases do autor. Desde seu começo ultraísta (corrente literária de vanguarda surgida em Madri) até o fim da vida, em que se tornou um orador reconhecido, os diversos Borges são contemplados pelos verbetes.

Listando as mais de 500 personagens no volume, surgem diversas das idiossincrasias de Borges, que, por exemplo, cita 95 britânicos, que é o mesmo número de argentinos, os dois polos de referência do escritor que, apesar de ter lido na maior parte escritos do século XIX, traz dezenas de pensadores e escritores da Antiguidade clássica para seus textos.


Vê-se o Borges fascinado pela literatura inglesa, que mergulhava nas aventuras de Robert Louis Stevenson e nos contos policiais de Edgar Allan Poe na mesma medida em que estudava clássicos elizabetanos como Shakespeare, Marlowe e Ben Jonson. Também está lá o Borges erudito, que conheceu como poucos a filosofia, a ciência e o misticismo do islamismo e do judaísmo na Península Ibérica. Que foi arrebatado em sua adolescência pela leitura das “Mil e uma noites”, o que rendeu um fascínio de vida toda pelo Oriente.

E ainda o autor que, na velhice e já cego, resolveu estudar a língua anglo-saxã e sabia de cor passagens das sagas medievais islandesas. Um literato profundamente consciente de seu tempo, que verteu ao castelhano contemporâneos da estatura de Virginia Woolf e Franz Kafka, um autor que admirava profundamente.

Apesar da erudição e da curiosidade implacáveis, uma ausência notável se dá no mapa de referências de Borges: a América do Sul. Para além do Uruguai e da própria Argentina, os países do continente só recebem menções passageiras em suas páginas. O verbete sobre o Brasil, escrito pelo próprio Schwartz, mostra como o vizinho recebe atenção “marginal” e, com exceção da região fronteiriça dos pampas, é basicamente ignorado. Entre os centenas de escritores citados por Borges, há apenas um brasileiro: Euclides da Cunha, autor de “Os sertões”.


— A geração dele, assim como a dos nossos (modernistas) do mesmo período, era muito voltada para a Europa, especificamente Paris. Na época, os livros não transitavam muito. Mas Borges está profundamente arraigado na história da Argentina, em suas guerras de independência — explica o organizador.

As figuras míticas da Argentina, de fato, fizeram parte constante da imaginação do escritor. Descendente de militares, ele sempre demonstrou carinho pela cultura de seu país, em especial um componente que lhe parecia associado a um passado cada vez mais distante: os gaúchos e os homens da fronteira, o tango e a milonga.

Ainda que fale muito da Argentina dos campos, dos subúrbios e das províncias, Borges nunca se desvencilha de sua cidade, Buenos Aires. Não à toa, seu primeiro livro é uma coleção de poemas em homenagem à capital portenha. Borges é fascinado pela cidade que conheceu quando criança e que se encontrava em processo de mudança incontrolável quando a ela retornou, já adulto. A cidade cujas ruas chamou de “entranhas de minha alma” lhe fascinava. Como diz Beatriz Sarlo, em seu verbete sobre a cidade, para ele, “ser das margens é um destino que pode impor-se como limitação, mas também aceitar-se como qualidade original”. Qualidade essa que sempre fecundou nas páginas de Borges.

ESCRITOR DE MÚLTIPLOS INTERESSES

“Talvez, no futuro, alguém, uma mulher que ainda não tenha nascido, sonhe que recebe a memória de Borges, como Borges sonhou que recebia a memória de Shakespeare”.

Assim Ricardo Piglia finaliza seu verbete sobre Memória, um dos diversos na enciclopédia que não apenas esquadrinham os livros, mas também abrem uma janela para entender a jornada e personalidade do autor.

E na memória dessa mulher, ainda não nascida, constariam as visitas de Borges ao Brasil, episódios pouco conhecidos na biografia do autor e que recebem menções no volume. Foram duas, ambas em São Paulo. A primeira, em 1970, quando veio receber um prêmio na Bienal do Livro. Já na segunda, em 1984, dois anos antes de sua morte, acompanhado de sua esposa Maria Kodama, deu palestras para o público brasileiro que lotou salões e até mesmo um estacionamento em busca de uma oportunidade de ouvir o velho escritor.

“Borges babilônico” é recheado desses e outros episódios, que mostram pequenos detalhes na biografia do escritor. Através dos verbetes, por exemplo, é possível conhecer a família Borges e suas raízes que datam da independência argentina. São figuras como seu avô, Francisco Borges, que lutou ao lado de Bartolomeu Mitre, ou sua irmã, Norah, uma artista que ilustrou a capa de “Fervor de Buenos Aires” (1923), primeiro livro de poesia do autor.

Seus muitos amigos também povoam as páginas da enciclopédia, e não apenas aqueles com quem teve parcerias notórias, como Bioy Casares (1914-1999) e Silvina Ocampo (1903-1993). A enorme estatura de Borges nas letras argentinas, e sua disposição de comentar o que se passava na cultura de seu país, fez com que o autor colecionasse grandes admiradores e também profundas divergências com colegas. Foi o que aconteceu com Ernesto Sabato (1911-2011), outro importante autor argentino, com quem Borges chegou a debater publicamente, como explicado no verbete escrito por Juliano Gouveia dos Santos.

Outra estrela, Júlio Cortázar (1914-1984) teve ajuda de Borges para publicar em uma revista seu primeiro conto, “Casa tomada”, abrindo as portas do mundo literário portenho para o então jovem autor. Mundo esse de que Borges foi parte intensa, tendo encabeçado revistas como “Proa” e “Prisma”, e participado de diversas outras como as revistas “Sur”, fundada por sua amiga Silvina Ocampo, e a “Martin Fierro”. Dessa última, Borges se desligou após uma divergência política, outro aspecto importante da vida do autor que é explorado com profundidade no volume.

Dono de um universo de imagens próprias e esmiuçado em suas obras, Borges também foi um cidadão do mundo. Além da Argentina, onde nasceu e passou boa parte da vida, ele viveu na Espanha e em Genebra, na Suíça, aonde voltou na velhice e disse se sentir “misteriosamente feliz”. São dois momentos cruciais na formação do jovem Borges, pois em sua educação suíça foi apresentado aos clássicos franceses, e, em Madri, às vanguardas europeias que levaria a Buenos Aires, provocando uma verdadeira revolução literária.

Um dos verbetes mais curiosos é o escrito pelo próprio Borges. Trata-se de um texto para a “Enciclopédia sudamericana” a ser publicada em Santiago do Chile no ano de 2074, e que trata da vida de um Jorge Francisco Isidoro Luis Borges.

Nele, fala de suas preferências — “a literatura, a filosofia e a ética” — e o fato de “nunca (ter) terminado de apreciar as letras hispânicas”. Conta que, como professor universitário, “nunca formulou uma pergunta nos exames (...) não exigia datas (...) e abominava as bibliografias”.

Compartilha preocupações, como a de que um dia “o declarassem um impostor ou embusteiro ou uma singular mistura de ambos”, e aspirações, do “desejo de tramar a mitologia de uma Buenos Aires que nunca existiu”.

E ainda destaca uma frase de Thomas Carlyle, escritor inglês: “a história universal é um texto que somos obrigados a ler e a escrever incessantemente e no qual também nos escrevem”.

É impossível subestimar a importância dos livros na vida de Borges, que chegou a dizer que “se tivesse de indicar o evento principal de minha vida (...) diria que é a biblioteca de meu pai. Na realidade, creio nunca ter saído dessa biblioteca. É como se ainda a tivesse vendo”.

E, aos livros, são indissociáveis esses dois elementos: as bibliotecas e a visão.

As primeiras o fascinaram a vida toda. Apareciam em seus escritos com constância, e deram nome a um de seus contos mais famosos, a “Biblioteca de Babel”, que pode ser lido no livro “Ficções”.

Para além disso, foram espaços não apenas de descobrimento, mas locais de trabalho em dois momentos opostos de sua vida.

Na juventude, esteve na Biblioteca Municipal Miguel Cané, um emprego que detestou, e, na velhice, foi diretor da Biblioteca Nacional da Argentina. Neste caso, um sonho realizado e limitado justamente pela visão.

Borges, que teve histórico familiar de cegueira, padeceu do mal no fim da vida. Com uma visão que se degenerou ao longo dos anos, o escritor sempre trouxe o assunto em suas obras. Mas talvez o momento mais emblemático tenha sido quando assumiu a enorme Biblioteca Nacional, local que o fascinou enormemente na infância e serviu de base para algumas de suas primeiras leituras.

Lá, tornou-se o terceiro diretor cego, depois de José Marmol e Paul-François Groussac. E escreveu um de seus poemas mais famosos, que mostram seu profundo apreço pelas contradições e duplicidades: “Ninguém rebaixe a lágrima ou rejeite/ esta declaração de maestria/ de Deus, que com magnífica ironia/ deu-me a um só tempo os livros e a noite”.

Fuente : Jornal O Globo  -  Brasil



miércoles, 7 de octubre de 2015

Direito Literatura - 'Pierre Menard', de Jorge Luis Borges






 TV e Rádio Unisinos  -  Brasil

Nesse Direito & Literatura discutimos a obra 'Pierre Menard', de Jorge Luis Borges. Para o debate, Lenio Streck recebe no estúdio Janaína Baladão, doutoranda em Letras na UFRGS, e Georges Abboud, advogado.

 

Fuente : You Tube